A cultura dos vlogs chega aos escritórios
Entrevista para a revista ADM PRO | CRA SP
Principais destaques da matéria*:
- Dualidade entre benefício e risco: embora os vlogs ajudem a humanizar a marca e aproximá-la do público, eles expõem as empresas a riscos de privacidade, confidencialidade e vazamento de informações estratégicas.
- Gestão de riscos e governança: a ausência de regras claras gera insegurança jurídica. É fundamental que o RH, em conjunto com o jurídico e o compliance, estabeleça diretrizes objetivas sobre o que pode ou não ser gravado e postado, desde o onboarding dos funcionários.
- O impacto da exposição: vídeos podem afetar a reputação da organização, especialmente se envolverem a exposição indevida de colegas ou posicionamentos inadequados que possam ser associados à empresa.
- Estratégia em vez de proibição: a proibição total pode ser contraproducente. Especialistas sugerem que, em vez de restringir, as empresas devem identificar colaboradores com perfil para serem embaixadores espontâneos e oferecer treinamento para que essa comunicação seja feita de forma estratégica, autêntica e alinhada à cultura organizacional.
* conteúdo gerado com o auxílio da ferramenta de IA Gemini, do Google.
Reuniões, eventos corporativos, tarefas do dia a dia e até o momento da demissão passaram a fazer parte dos chamados “vlogs de trabalho”, conteúdos que vêm ganhando cada vez mais espaço, especialmente em redes sociais como o TikTok e o Instagram. O que antes ficava restrito ao ambiente interno das empresas virou material de entretenimento, identificação e construção de marca pessoal.
No entanto, ao mesmo tempo em que esses vídeos ajudam a aproximar as marcas do público e humanizar a comunicação nas redes, eles também levantam debates sobre privacidade, confidencialidade e governança.
Para Patrick Schneider, pesquisador de Trabalho no Futuro e especialista em Recursos Humanos, o crescimento desse tipo de conteúdo está ligado à rápida transformação da comunicação digital. “Hoje, comunicar significa compartilhar, muitas vezes sem saber quem vai atingir e como isso irá reverberar”, afirma.
Segundo ele, as redes sociais priorizam entregar ao público conteúdos que buscam transmitir espontaneidade, mesmo quando existe algum nível de roteirização. “Quanto mais simples e honesto, maior o engajamento”, explica Schneider.
Quando o colaborador vira porta-voz
Mesmo publicados em perfis pessoais, os vídeos sobre determinada rotina profissional acabam associando automaticamente o funcionário à empresa onde ele trabalha. Na prática, os colaboradores passam a ocupar, ainda que informalmente, um papel de influenciador digital da companhia.
Essa exposição pode fortalecer a gestão de marca, mas também gerar crises de imagem dentro da chamada “cultura de cancelamento”, fenômeno que ocorre principalmente no ambiente digital, quando empresas ou figuras públicas passam a ser amplamente criticadas, boicotadas ou têm sua reputação afetada após condutas ou posicionamentos considerados inadequados pelo público. Schneider comenta que o desafio está justamente em estabelecer limites sem sufocar a autenticidade e o engajamento. “Demonstrar o dia a dia, na perspectiva do trabalhador, é um movimento muito interessante”, observa o especialista.
Os limites da exposição
O crescimento desse tipo de vídeo também ampliou as preocupações jurídicas. Para Maria Lucia Benhame, advogada especializada em Recursos Humanos e sócia-fundadora da Benhame Advocacia, a ausência de regras claras aumenta os riscos trabalhistas, cíveis e reputacionais.
Para a especialista, o chamado Employee Generated Content (EGC), que abrange desde uma foto de equipe postada no LinkedIn até os vlogs, exige atenção porque nem sempre é possível diferenciar o que é espontâneo do que ocorre sob incentivo institucional. “Quando existe estímulo da companhia para que empregados publiquem conteúdos, surgem discussões sobre controle, responsabilidade e até desvio de função”, afirma.
Schneider também chama atenção para os riscos relacionados à exposição não autorizada de outros profissionais em ambientes coletivos, como elevadores, corredores e estacionamentos. “A dinâmica da organização precisa ser protegida por uma governança transparente sobre a criação de conteúdos dentro da empresa, em eventos e imediações”, acrescenta.
A advogada explica que a exposição indevida de terceiros pode resultar em processos judiciais e indenizações, conforme previsto em lei. Além da questão da imagem, vídeos aparentemente simples podem revelar informações estratégicas, fornecedores, clientes ou processos internos delicados, colocando em risco o planejamento e metas da organização. E, dependendo da gravidade da situação, a exposição pode resultar até no desligamento do colaborador. “Se a empresa se sentir prejudicada, deverá analisar a gravidade da falta cometida e poderá demitir o empregado, inclusive, por justa causa, quando cabível”, pontua Maria Lucia.
RH, governança e cultura digital
Os vlogs no trabalho deixaram de ser apenas uma trend e passaram a impactar diretamente a cultura organizacional, o compliance e a gestão de riscos. Por isso, é papel do departamento de Recursos Humanos, segundo Schneider, a orientação dos colaboradores. “O RH deve elaborar, em parceria com a comunicação institucional, o jurídico e o compliance, uma diretriz objetiva sobre o que é ou não permitido gravar e postar”, sugere. Ele ressalta, ainda, que é papel do setor garantir que estas regras sejam esclarecidas desde o processo de onboarding.
Tanto para Schneider quanto para Maria Lucia, as medidas recomendadas para evitar possíveis transtornos são a criação de políticas internas destacando o uso de redes sociais, a proteção de informações confidenciais, a exposição de colegas, e o alinhamento para manifestações públicas envolvendo a instituição.
Por fim, Maria Lucia aconselha que o ideal é evitar colocar os colaboradores como representantes da empresa nas redes sociais, para assim reduzir associações da marca a posicionamentos políticos, ofensivos e discriminatórios promovidos em perfis pessoais. “Mas, se a organização deseja ter um programa de EGC, ele deve ser bem desenhado, inclusive em relação à remuneração do empregado por essa função”, reforça a advogada.
Adaptar ou resistir?
Entre as várias discussões sobre exposição excessiva e compartilhamento de informações, Schneider aponta que a proibição total dos vlogs corporativos pode gerar um efeito contrário ao esperado. Em um cenário em que a comunicação digital atravessa tanto a vida pessoal quanto a profissional, políticas muito rígidas podem reforçar uma percepção de controle excessivo dentro das empresas.
Como alternativa, Schneider sugere que o ponto central está em identificar quais colaboradores possuem perfil e interesse para atuar como representantes espontâneos da organização. “A empresa precisa localizar quais profissionais gostariam de se tornar comunicadores de marca. Algumas pessoas são mais afeitas e outras podem se sentir em um filme de terror, por isso, essa é uma boa estratégia para contornar a percepção de proibição total”, ressalta o especialista.
Além disso, ele complementa que treinamentos e orientações contínuas são fundamentais para adaptar empresas à cultura digital: “Há um espaço no qual as pessoas gostariam de ser os narradores das histórias e ocupar o espaço de protagonistas. Compreendo que não devemos ter retrocessos no processo de comunicação, mas sim adaptações”, finaliza Schneider.
Employee advocacy: a aposta nos influenciadores internos
Se antes os embaixadores de marcas estavam associados principalmente às celebridades, hoje a mudança no consumo de conteúdo aproximou as pessoas de figuras com as quais elas conseguem se identificar no cotidiano.
Nesse cenário, surgiu o employee advocacy, prática que transforma os próprios funcionários em embaixadores da marca. Ao perceberem o potencial de alcance e o engajamento dos conteúdos corporativos, algumas empresas passaram a estruturar programas para incentivar esse movimento, visando redes como o Instagram e LinkedIn. Os posts têm um objetivo principal: trazer visibilidade e comprovar a missão e os valores da organização.
Segundo Carol SantAnna, especialista em employee advocacy, a diferença entre uma postagem espontânea, como os vlogs, e um programa estruturado está na estratégia. “Não é sobre pedir para postar, mas sim criar condições para que o colaborador queira ser a voz da marca”, afirma.
Ela explica que, para o programa funcionar, é essencial que as empresas ofereçam treinamentos, conteúdos de apoio e direcionamentos para que os profissionais compartilhem experiências e conhecimentos nas próprias redes sociais. “O grande erro é tentar robotizar as pessoas. Podemos até oferecer um conteúdo sugestivo com temas e dados técnicos para ser replicado, mas é fundamental que cada um faça seus pequenos ajustes. Esse toque pessoal é o que garante que a mensagem não perca a espontaneidade”, explica a especialista.
Carol destaca que conteúdos publicados por funcionários costumam gerar mais alcance e conexão do que postagens institucionais. “As redes sociais priorizam postagens publicadas por pessoas reais. Em alguns casos, a soma dos perfis dos colaboradores pode chegar a ser dez vezes maior do que a base de seguidores da própria empresa, o que ajuda a marca a alcançar o público de um jeito mais natural e autêntico”, comenta.
Além da visibilidade, a estratégia também influencia o recrutamento, o engajamento e a retenção de talentos. “Candidatos impactados por embaixadores reais tendem a se identificar profundamente com a cultura da organização. Isso ajuda a reduzir custos, fortalece o sentimento de pertencimento e mantém os melhores talentos dentro de casa”, relata Carol.
Apesar dos benefícios, ela ressalta que antes dos programas de advocacy serem implementados, é essencial analisar a saúde da cultura organizacional. De acordo com a especialista, se o clima não estiver positivo, qualquer tentativa de incentivar postagens parecerá artificial, podendo gerar um efeito contrário ao objetivo principal.
Outro fator importante que Carol destaca é que o colaborador seja um embaixador de forma voluntária. “O funcionário precisa ser tratado como parceiro de conteúdo e nunca apenas como um canal de mídia gratuito. A verdade de um post morre no momento em que ele se transforma em uma tarefa burocrática no checklist do RH”, conclui.
Para acessar a matéria no site de origem: https://crasp.gov.br/admpro/site/materias-em-destaque/a-cultura-dos-vlogs-chega-aos-escritorios